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A região de Ansião corresponde a uma área relativamente rebaixada e de certa forma marginal ao carso do Maciço de Sicó. Aqui coexistem duas situaçőes estruturais com interesse para a explicação das formas do relevo, em particular e dos aspectos paisagísticos, em geral. Uma delas é a complexa tectónica que afecta as rochas carbonatadas jurássicas e que permitiu o afloramento e exposição das margas e calcários margosos do Jurássico inferior (Liásico) lado a lado com os calcários mais puros do Jurássico médio (Dogger) que funcionam como esqueleto básico da morfologia cársica do maciço. A diferença nítida de resistência aos agentes erosivos faz com que nos materiais margosos se abram pequenas depressões, por vezes praticamente fechadas por processos a que não serão alheios os modos como se faz a circulaçăo cársica nos calcários do Dogger que as envolvem. Destas depressões merecem referência os amplos vales fluviais do Campo e de Camporez que, apesar de alinhados no sentido meridiano a ponto de mal se diferenciarem um do outro, correspondem a distintas situaçőes de drenagem,com curso para o Nabăo e daí para o Tejo, no primeiro caso, e para o Mondego através do Dueça, no segundo. Mais a norte,um conjunto de pequenas depressões alinhadas em rosário parece ter mais que ver com processos cársicos. Săo as depressões da Várzea da Granja, Várzea de Torre de Vale de Todos, Várzea de Vale de Todos e Várzea da Póvoa, estando esta última completamente fechada em virtude do funcio-namento cársico do Algar do Caçador, um enorme sumidouro onde se perdem as águas que, pelos menos durante os períodos mais pluviosos do inverno, percorrem e afeiçoam a depressão. No seu conjunto, estas formas deprimidas, aproveitadas tradicionalmente para o cultivo da vinha, da oliveira e de cereais, tem em comum um fundo relativamente amplo e aplanado,em vivo contraste com vertentes mais ou menos declivosas, talhadas superiormente nos calcários duros e que na base apresentam, frequentemente, ravinas mais ou menos profundas associadas às margas e calcários margosos da regiăo. Um segundo factor estrutural com marcado interesse morfológico e paisagístico é o recobrimento das superfícies calcárias por depósitos gresosos, na sua maior parte cretácicos, que na área de Ansião podem ser já relativamente espessos. Apesar de, nos fundos dos vales, os calcários poderem aflorar e as exsurgências cársicas ditarem as regras de funcionamento hidrológico, o facto é que a paisagem dos sectores aplanados interflúvios desenvolvidos nos grés a cotas que pouco ultrapassam os 200 metros, até pela vegetação relativamente exuberante nada tem a ver com os aspectos cársicos da paisagem que se desenvolve no maciço. No entanto, também podem encontrar-se nesta unidade - ainda que em curtos espaços - blocos calcários suficientemente soerguidos e desnudados de depósitos para que neles se apresentem marcas nítidas de carsificação. É o caso do estreito afloramento de calcários do Dogger que se inicia no chamado Castelo do Sobral e que se vai estender em direcção a sul, a Serra de Alvaiázere. Para além de lapiás mal desenhados e de uma ou outra dolina já esventrada pela erosão fluvial, o pequeno morro do Castelo do Sobral, tectonicamente levantado face ao Vale do Dueça, acabou por se impor no contexto cársico do Maciço de Sicó, após a descoberta recente da maior e mais espectacular cavidade cársica de todo ele: a gruta das Taliscas. Nesta região, a oliveira tem um papel fisionómico importante, quer na sua variedade brava o zambujeiro quer, sobretudo, na variedade cultivada. De um modo geral, as oliveiras são árvores de pequeno porte mas grande longevidade, podendo donda podem ver-se magníficos exemplares que bem testemunham o cultivo tão antigo da oliveira nestas paragens. Próximo de Santiago da Guarda, disseminados por uma área relativamente extensa, surgem numerosos exemplares de carvalho-cerquinho. De tamanho relativamente modesto, năo ultrapassando em média os vinte metros de altura, observam-se aqui alguns exemplares de idade considerável, servindo frequentemente de suporte ao polipódio. |
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Exsurgência dos Olhos de Água de Ansião A mais importante será, sem dúvida, a dos Olhos de Água de Ansião, com um caudal médio anual da ordem dos 20 Mm3 e um caudal instantâneo que pode ultrapassar os 1000 l/s durante os picos invernais. pogeia do bordo oriental do maciço, nomeadamente da drenagem que se perde no Algar do Caçador, encontra-se a exsurgência dos Olhos de Água do Dueça que, a semelhança da de Legacão, apenas deixa de funcionar nos verões muito secos, atingindo, de inverno, caudais que podem chegar aos 2000 l/s. |
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Santiago da Guarda é a maior freguesia do Maciço de Sicó, a excepção das sedes de concelho. Apesar das perdas significativas que sofreu entre 1960 e 1991, neste último ano ainda contava 3212 habitantes.
O seu nome surgiu em tempos modernos a encabeçar lugares que durante a Idade Média tinham bem diversas e saborosas designações - Façalamim, Rasca Velhas, Campo da Orada, Moita Santa.
O complexo monumental de Santiago da Guarda é constituído por uma Torre Medieval e um Paço fortificado do séc. XVI/XIX, edificados sobre uma villa romana, sendo aquela construção um dos raros edifícios civis que ostenta a vieira, símbolo da sua função de apoio do Caminho Português de Santiago, traçado sobre a antiga estrada romana. A sua missão, integrada no Circuito da Romanização, visa mais longe, atribuido-lhe funções de centro de interpretação do património arquitectónico e da paisagem das Terras de Sicó e de Centro Multi-Rotas do Turismo Ambiental. Por baixo da majestosa torre encontram-se os vestígios do átrio da villa romana, com os seus mosaicos quase intactos. O programa de restauro transformou a Torre num observatório da paisagem a céu aberto, bem no centro geográfico do maciço calcário de Sicó, acessível através de uma estrutura metálica de pisos. Os elementos arqueológicos, com valiosos painéis de mosaicos policromados permanecem visíveis em todo o percurso museológico, graças a opção por um piso aberto, que na Torre é uma pirâmide de vidro.O Centro de Interpretação, que resulta da reabilitação do Solar dos Condes de Castelo Melhor, está estruturado com salas de exposição, capela Manuelina, auditório, núcleos documental, multimédia e informático, oficina de arqueologia, pequena residência turística e loja de produtos regionais, organizados em torno de um amplo pátio destinado à animação cultural e ao lazer turístico.
As imagens quinhentistas da igreja matriz e as capelas da Granja e da Orada contribuem grandemente para compensar o visitante destes lugares.
Perto da Moita, no Carvalhal, encontram-se umas galerias subterrâneas que muito intrigam.Talvez pertençam a villa romana, uma das várias que nesta zona devem ter existido.
Escampado de S. Miguel, referido num testamento de 1314 como situado no termo de Ansião, encontra-se próximo da vila e tem hoje o enorme interesse de aí se ter localizado um castro da Idade do Ferro. Ainda mais perto, em Atalaia, identificou-se uma anta, encontrando-se outra no Alto do Pisca, mais para norte.
Torre de Vale de Todos é uma pequena povoação que em 1991 contava 500 habitantes.Tem origem medieval e talvez fizesse parte da linha defensiva da Ladeia que integrava Ateanha e Alvorge. Actualmente, ocupa com a Lagarteira o centro da área nordeste desta zona, bem servida de água e marcada por um bonito vale.
Entre este e o Dueça, levanta-se Castelo do Sobral, nome bem evocativo do castro que ali existiu. Um pouco abaixo, existem vestígios mais antigos, de ocupação da Idade do Bronze em Venda das Figueiras e de uma anta na Cumeeira.
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