Paço dos Vasconcelos, vista nascente/sul, na actualidade.
O texto, que agora se publica, é uma breve síntese do estudo realizado em 2001 para a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) com o objectivo de proporcionar o enquadramento histórico- ‑artistico necessário à intervenção de fundo que então se preparava e que hoje se encontra praticamente concluída. Embora o Paço dos Vasconcelos tivesse sido já objecto de análises diversas a de José Custódio Vieira da Silva, a aquisição do imóvel por parte da Câmara Municipal de Ansião, em meados da década de noventa do século XX, alterou significativamente as condições de estudo, permitindo, finalmente, uma observação minuciosa de todo o complexo, até aí vedado, se não na totalidade, pelo menos em parte expressiva, ao interesse dos investigadores. Composto por dois elementos formalmente distintos, embora perfeitamente articulados — torre e residência —, a evolução do conjunto conta com um suporte documental que, apesar de não aludir explicitamente ao edificado, estabelece o quadro completo dos sucessivos proprietários, bem como o seu enquadramento legal. Efectivamente, a Quintã da Guarda, propriedade em que se integrava o paço, surge por diversas vezes referenciada nas chancelarias régias, sobretudo nas de D. João II e D. Manuel I. Na posse do infante D. Pedro até 1449, a quintã é doada, na sequência da Batalha de Alfarrobeira, a Rui Borges, senhor de Alva e alcaide-mor de Santarém Duas décadas depois mudava novamente de proprietário: a 9 de Junho de 1468, D. Afonso V doava a João Rodrigues Ribeiro de Vasconcelos e a todos os seus sucessores a Quintã da Guarda e Feira da Mouta Santa, próxima do Rabaçal, com todas as suas rendas, direitos e pertenças, tal como as tivera anteriormente Rui Borges e os seus filhos o monarca os (...) serviços que a seu lado combatera em Alfarrobeira, Alcácer Ceguer, Tânger e Toro —, corroborava a doação, ordenando explicitamente que a propriedade fosse (...) 1, de consulta obrigatória2.3. Em 1476, invocandomuitos e grandes e continuados(...) recebidos de João Rodrigues Ribeiro — sempre coutada e honrada e priviligiada pella guisa e condiçam que o sempre foy em tempo de outros rex nosos amtecesores (...) privilégios que D. João II, (...) tirando o pescar João Rodrigues Ribeiro de Vasconcelos senhor de Figueiró e Pedrógão, do Conselho do Rei e um dos grandes do reino viria a falecer em 1489 deixando a quintã, juntamente com todos os seus privilégios, a Pedro de Sousa Ribeiro, seu filho mais novo, o que D. Manuel I confirmaria por carta régia datada de Maio de 1497 Na realidade, embora a doação, redigida na torre em que viviam em Figueiró, datasse de 1475, Pedro de Sousa Ribeiro só muito mais tarde terá tomado posse efectiva dos bens, uma vez que o documento8, cuja morte não deverá ter ocorrido antes9, como parece10.11, seu12.sempre foy(...), factocasa de morada era o elemento definidor,(...)13,14, delimitada, grosso modo, por Condeixa,15, pode, pelas16, Simão de Sousa Ribeiro reservava o usufruto vitalício para D. Branca da Silva, sua mãe dos meados da década de noventa indiciar o conjunto de confirmações então feitas a Pedro de Sousa. Tal como o pai, foi membro do Conselho do Rei, alcaide-mor de Pombal e comendador da Ordem de Cristo. Casado com D. Joana de Lemos, filha de Gomes Martins de Lemos, senhor da Trofa, viveu preferencialmente na corte, onde se destacou enquanto poeta. Foi sepultado na Igreja de Santa Maria do Castelo de Pombal em data difícil de precisar: se o seu epitáfio tinha inscrito o ano de 1502, Braamcamp Freire prova que vivia ainda em finais de 1505, data em que um seu poema provocou algumas reacções na corte manuelina Sucedeu-lhe, na posse da quintã, bem como na alcaidaria de Pombal, Simão de Sousa Ribeiro filho primogénito. Sepultado na mesma capela que o pai, morreu, de acordo com a inscrição, em 1569 Do quadro estabelecido importa reter alguns aspectos: em primeiro lugar, a referência de 1476 ao estatuto de terra coutada e honrada como (...) em tempo de outros rex nosos amtecesores que pode apontar para a eventual preexistência de uma residência senhorial. Como sublinhou Vieira da Silva, a (...) por excelência, da quintã sendo o instrumento legal indispensável para lhe dar consistência jurídica situação, justamente, em que o recurso à solução turriforme foi recorrente. Por outro lado, a propriedade em análise integrava a região conhecida, nos séculos XII e XIII, pelo termo de Ladeia Soure, Ansião e Penela. Para além de fronteira, era atravessada pela Estrada Coimbrã, principal corredor de circulação no sentido norte-sul só substituído, em 1798, pela abertura da Estrada da Malaposta sendo, por isso, palco frequente de confrontos e detendo um importante valor militar. A linha de defesa, baseada nos castelos de Germanelo e Penela, encontrava em torres dispersas pelo território o complemento necessário, caso de Ateanha e Alvorge, entre outras, entretanto desaparecidas, mas que a toponímia acusa, como é exemplo a Torre de Vale Todos. Nada obsta, por isso, a que existisse uma torre de atalaia na Guarda que o topónimo, justamente, evocaria. Como suporte desta hipótese, uma análise dos paramentos da torre permitia, ainda em 2001, detectar uma “cicatriz” que, coincidente com o limite superior do primeiro piso, se estendia ininterruptamente por três das faces (com o alçado norte escondido pelas construções posteriores). A questão que se coloca é a de que essa costura possa corresponder ao aproveitamento de uma estrutura anterior, cujo abandono ou mau estado de conservação ditaria em finais de Quatrocentos, e depois de corroborados pelo monarca os privilégios de couto e honra ao novo proprietário (que, ao contrário do pai, faria da Guarda a sua sede de residência), uma ampla reforma. A existência de uma torre mais antiga justificaria ainda alguns dos arcaísmos sobreviventes, caso do carácter maciço do piso térreo, do acesso elevado ou da existência de frestas no primeiro andar. A torre de Santiago da Guarda, com um fácies actual datável da passagem do século XV para o XVI razões enunciadas, ser afinal a reconstrução de uma outra mais antiga. No decorrer da primeira metade de Quinhentos, e aceitando-se como baliza final o ano de 1544 inscrito na verga do portal manda edificar o paço anexo numa linha cortesã e humanista, em claro contraponto com o carácter rude e militarizado da torre.17, afirmando18. As obras então19 — pela repetição20. E contudo, o simbolismo que presidira à (re)edificação da torre por Pêro de Sousa Ribeiro a autenticidade e antiguidade linhagística, permanecia válido décadas depois executadas não deixam de lado a torre que, apesar de ultrapassada em termos de conforto, mantinha toda a sua actualidade retórica, reservando-se-lhe, por isso, um lugar central na nova fachada. Contígua ao acesso principal ao paço constitui, pela sua volumetria e projecção em altura, o elemento claramente dominante e a nota mais forte do discurso ideológico subjacente. Mas é indubitavelmente a nova construção, pela solução planimétrica adoptada, que assegura ao conjunto um lugar de destaque na história da arquitectura doméstica portuguesa de Quinhentos. Com uma matriz vincadamente racional quase obsessiva de um quadrado com 5,80 metros de lado —, residência e anexos configuram quatro alas em torno de um pátio central, definindo uma área de implantação rectangular. A capela, adjacente à ala nobre situada a nascente, constitui a única excrescência ao perímetro global sem que tal introduza, porém, uma qualquer nota acidental: repare-se como, integrados os contrafortes, o pequeno oratório se circunscreve rigorosamente ao quadrado modelar já referido, ao mesmo tempo que, pelo prolongamento da sua linha extrema, o conjunto edificado adquire, de novo e sintomaticamente, a forma de um quadrado perfeito. A clareza formal do paço, indiciando uma campanha única e globalmente concebida desde o primeiro momento, reflecte-se na forma como se tirou partido dos percursos, pelo menos dos que directamente se relacionam com a ala nobre. É aí que uma sucessão de portas perfeitamente alinhadas dá origem a um longo eixo perspéctico que atravessa a ala em toda a sua extensão. Da mesma forma, dificilmente pode caracterizar-se como aleatória a localização da entrada principal, rigorosamente a eixo da porta da torre, vincando a nobreza do trajecto que, cruzando o pátio, articula os dois elementos mais significativos de todo o conjunto. O Paço dos Vasconcelos desempenha, por isso, um papel relevante enquanto elo de uma cadeia de experiências que, desde Quatrocentos, mas sobretudo na centúria seguinte, corporizam as pesquisas nacionais em torno da regularidade planimétrica e da tipologia centrada num pátio distribuidor. Desta mesma genealogia fazem parte, entre outros, os paços de Água de Peixes, do início da centúria, da Verdelha, de cerca de 1530, de Valflores (aqui apenas ao nível da regularidade), levantado entre 1537 e 1558, do Marujal, da década de quarenta, da Quinta dos Chavões, de finais de Quinhentos ou, finalmente, da Quinta das Torres, em Azeitão, que definitivamente consagraria a tipologia Com os exemplos referidos partilha também uma atmosfera amena e requintada conseguida pela articulação de factores vários evidenciando, qualquer deles, uma evolução relativamente à tradição medieval, quer pela ordenação racional do espaço, desde logo separando claramente áreas de sociabilidade e recolhimento, quer pelo nível de conforto alcançado, fosse por intermédio de uma maior especialização funcional, fosse pela luminosidade e arejamento que uma multiplicidade de amplas janelas asseguravam ao mesmo tempo que vários fogões de sala, quatro deles ainda parcialmente subsistentes, garantiam o aquecimento necessário.21. villa sequer a componente fortificada pela integração da torre preexistente Ainda a este propósito, pode conjecturar-se se o remate dos paramentos — integralmente rebocados e caiados tal como Vieira Caldas o definiu e a que não falta22.23 e onde apenas sobressaíam as guarnições dos vãos, os silhares dos cunhais e os elementos heráldicos — não comportaria algum tipo de coroamento ameado, solução que, embora já então despida de qualquer valor militar, mantinha uma importante carga simbólica e de que os paços de Giela, de Curutelo, de Ribafria ou de Valflores são apenas alguns exemplos. O que, mais do que uma torre isolada, explicaria a razão do paço ser, desde há muito, localmente conhecido por “castelo”. Resta, por último, fazer uma breve referência à capela, adossada à zona de maior recolhimento da ala nobre, em sintonia com o discurso de D. Duarte quadrangular e apenas 3 metros de lado, apoia-se exteriormente em dois grossos contrafortes, sendo a única divisão do paço que mantém ainda a cobertura original, com abóbada nervurada de perfil abatido. Nas mísulas e chaves, à excepção da central que ostenta uma pedra de armas, abandona-se finalmente a discreta gramática manuelina que decora quase sem excepção todos os vãos, optando-se, neste caso concreto, pelo gosto renascentista emergente. São evidentes as afinidades entre esta abóbada e aquelas que Diogo de Castilho divulgou sistematicamente na região ao longo de toda a década de trinta. Dos vários exemplos possíveis, importa destacar a cobertura da capela-mor da Igreja Paroquial de Trofa do Vouga pela influência que possa ter exercido em Simão de Sousa Ribeiro. Na realidade, era nessa mesma capela, mandada edificar, em 1534, por D. Duarte de Lemos para panteão da família, que se encontravam sepultados os avós maternos de Simão de Sousa Ribeiro. Acompanhando de perto as empresas artísticas do primo, aí encontraria não apenas Diogo de Castilho ou, mais plausivelmente, um seu auxiliar capaz de erguer o oratório do paço, como também João de Ruão a quem, em parceria com Jaques Boucher, a aceitar-se o testemunho de Frei Agostinho de Santa Maria, viria a encomendar alguns anos depois uma capela para a Igreja de Santa Maria do Castelo, em Pombal, onde jaziam os pais e ele próprio viria a ser sepultado Na primeira metade do século XVII, Rui Mendes de Vasconcelos, primeiro conde de Castelo Melhor, deixa o título a João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa (1593-1650), descendente directo de Pedro de Sousa Ribeiro, razão por que o paço é conhecido, a partir de então, como residência senhorial dos Castelo Melhor A sucessão no título tinha por condição o casamento com a sua neta, D. Mariana de Lencastre, filha de Simão Gonçalves da Câmara, terceiro conde da Calheta e sétimo capitão donatário da Madeira. É a D. Mariana de Lencastre, herdeira do Condado da Calheta, que se deve a afixação da pedra de armas dos Câmaras na chave central da capela, bem como na porta que lhe dá acesso remodelação. Os únicos vestígios de alterações entretanto sofridas resumem-se, contudo, ao rasgar de três amplas janelas providas de assentos, registadas em fotografias antigas e denunciando uma possível dessacralização do espaço, convertido, a partir de então, no que parece ser um mirante. 24. De planta25.26.27, indiciando uma eventual A sensibilidade humanista do paço reflecte-se, da mesma forma, no contacto com o espaço exterior para o qual, na ala nascente e sobretudo na zona de maior sociabilidade, além de um acesso directo, abriam amplas e confortáveis janelas de assento, reflectindo uma nova relação de proximidade com a natureza, concretizada na apropriação de vistas e na fruição de hortos, jardins ou pomares contíguos Se a uma arquitectura “renovadora e assertiva” somarmos o carácter lúdico que tudo indica ter-se sobreposto à função de centro de exploração agrícola, o Paço dos Vasconcelos corresponde ao conceito de (...), confirmou, em 14864.5, terceiro6,7.
Luísa Trindade
Historiadora da Arte
Docente da Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra
Imagens: Revista Monumentos 25 - DGEMN.
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