» A Reabilitação
Paço dos Vasconcelos, acesso à torre.


No âmbito das iniciativas ligadas à salvaguarda e valorização do património natural e construído do Parque Ecológico Gramatinha/Ariques/Algorinho, foi dado início, em 2001, ao processo de reabilitação do antigo Paço dos Vasconcelos, em Santiago da Guarda, concelho de Ansião. Do emblemático imóvel, classificado como Monumento Nacional, persistia a ruína da residência medieval erguida, segundo constava, sobre estruturas arqueológicas do período de ocupação romana da Península Ibérica, facto que lhe conferia um significado ainda maior no contexto patrimonial da região. Com o objectivo de estabelecer uma metodologia de abordagem foi formado um grupo de trabalho, composto pela Liga de Amigos de Conímbriga (LAC), pelo Museu Monográfico de Conímbriga (MMC), pela Câmara Municipal de Ansião (CMA) e pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), a quem coube a tarefa de definir o modelo de gestão e constituir a equipa técnica responsável pelo desenvolvimento do projecto e respectivas obras. A metodologia de abordagem ao imóvel partiu da interdisciplinaridade inerente à natureza da intervenção a realizar, acentuada pelos diversos estratos históricos em presença. Na sequência da constituição da equipa e da definição do programa de ocupação do conjunto edificado, procedeu-se à realização de sondagens arqueológicas em simultâneo com a investigação histórica. O projecto desenvolveu-se em paralelo, procurando a integração das estruturas arqueológicas sem deturpar a leitura do antigo paço quinhentista, compatibilizando assim as exigências funcionais do programa com as novas áreas. Foi então definido um faseamento do desenvolvimento do projecto/intervenção, de forma a permitir a ocupação e a fruição dos espaços disponíveis e a prossecução das escavações escavações arqueológicas, iniciando-se a intervenção na torre e posteriormente no paço. Notável pela geometria e pela regularidade do desenho, o paço constitui um exemplo peculiar da arquitectura civil portuguesa do século XVI. Do conjunto, destaca-se a torre, elemento dominante pelo seu número de pisos em contraste com o corpo térreo de um piso que delimita o pátio central. O volume da capela, adossado à ala nascente, constitui o terceiro elemento relevante da edificação. Diversas alterações, nomeadamente no que respeita à abertura e fecho de vãos, têm lugar nos séculos seguintes. A perda do estatuto de residência senhorial degenera no arrendamento das diversas unidades espaciais para habitações, comércios, estábulos e arrecadações. Estas alterações de usos provocaram uma inevitável degradação do seu estado de conservação, bem como adulterações pontuais significativas — aumento parcial da volumetria com a construção de novos corpos e respectivos sistemas diferenciados de coberturas. O estado de ruína parcial das alas devolutas obrigou, no ano de 2000, a uma intervenção (da responsabilidade da CMA) de consolidação geral de alvenarias, que se estendeu mesmo à torre, onde grande parte dos merlões havia desaparecido. Esta iniciativa foi crucial para parar os acelerados processos de degradação em curso e permitir a programação ponderada do presente projecto. Propriedade de descendentes da família Vasconcelos até meados dos anos noventa, o imóvel está hoje na posse da autarquia que procedeu, entretanto, à desocupação dos espaços comerciais e habitações arrendadas a particulares. O projecto teve como linha orientadora a preservação da volumetria original do conjunto do paço e torre, devolvendo-lhe a sua unidade quebrada, entretanto, pelos volumes introduzidos. Para o efeito, foi assumida, antes de mais, a demolição de todas as estruturas apostas no século XX, que não só deturpavam a sua leitura, como constituíam elementos prejudiciais à estabilidade do imóvel. A desobstrução do pátio, conjugada com uma cobertura uniformemente estendida a todo o perímetro da área construída, devolveria ao paço a sua unidade formal. A distribuição das diversas unidades funcionais foi definida em função da hierarquia existente de espaços, procurando manter-se, tanto quanto possível, os percursos. O desenvolvimento do projecto foi fortemente condicionado por dois factores: por um lado, as estruturas arqueológicas da vila romana — muros, drenos, mosaicos… —, “surpresas” de inegável interesse obrigaram à inclusão nos percursos de visita, ou quando não, à sua acessibilidade para estudo; por outro, os vãos ”quinhentistas” existentes determinaram os acessos ao exterior e a comunicação entre si das diversas unidades espaciais. Todo o trabalho de definição de materiais e soluções construtivas assentou no princípio da reversibilidade, com recurso a elementos estruturais metálicos (caso dos pavimentos, da cobertura e da regularização de vãos). O programa funcional de ocupação do imóvel contempla a abertura ao público da torre e das zonas nobres do antigo paço — toda a ala nascente — onde terão lugar o átrio, as áreas de exposições, os quiosques multimédia, a sala polivalente para grupos (já na ala sul) e respectivas instalações sanitárias. Nos restantes espaços localizar-se-ão o centro de documentação, as áreas da administração, a habitação temporária para técnicos, a oficina de arqueologia, a loja para venda de produtos endógenos das Terras de Sicó e a cafetaria. Note-se que a distribuição das diferentes áreas funcionais respeita a estrutura existente do imóvel, conjugada com a necessidade de autonomia e articulação com outras áreas.


Luísa Cortesão
Arquitecta
Direcção-Geral dos Edifícios
e Monumentos Nacionais
Imagens: Revista Monumentos 25 - DGEMN.
  • Reabilitação arquitectónica
     » A torre
    Paço dos Vasconcelos, execução da estrutura da cobertura.


    Destacando-se do restante conjunto edificado pelo seu desenvolvimento em altura, a torre constitui o elemento dominante da paisagem. Este facto é tanto mais acentuado pelo seu carácter autónomo, uma vez que goza de um acesso independente. Constituía, antes da intervenção, um volume vazado, sem pisos intermédios ou cobertura, memória que se assumiu manter. A intervenção teve então como objectivo dotar esta estrutura de acessos verticais e pisos intermédios, de forma a poder constituir um posto de observação da paisagem. A escavação arqueológica revelou estruturas romanas ao nível do piso inferior — até então aterrado —, facto que implicou também a criação de um acesso e de uma estrutura que permitisse a sua observação. A necessidade de criar de uma estrutura de pavimentos e acessos verticais teve como condicionante, antes de mais, a estabilidade da própria torre e o respeito pela manutenção da sua tipologia arquitectónica. Já a solução formal dessa estrutura decorreu das exigências funcionais propriamente ditas, como as escadas, o acesso à fenestração existente, o aproveitamento dos panos interiores das paredes para eventual suporte de painéis informativos, a observação das estruturas do piso inferior e a manutenção do vazado central actual. Simultaneamente, foi ponderada a natureza dos materiais de construção a utilizar e respectiva solução estrutural, de forma a conciliar os aspectos construtivos com as exigências funcionais. A solução adoptada passou pela implantação de uma estrutura metálica aparafusada às paredes existentes, que funciona como apoio dos pisos, escadas e clarabóia de iluminação e ventilação do piso inferior. Salvaguarda-se assim de apoios, o pavimento deste piso, de modo a não interferir com as estruturas arqueológicas. Por motivos de preservação destes elementos, o piso da entrada é estanque, tendo sido criado um sistema de drenagem de água da chuva directamente para o exterior através de caleiras articuladas com a estrutura do pavimento. Os pisos superiores são em grelha metálica, permitindo a passagem e filtragem da luz natural. A clarabóia piramidal, criada no piso de acesso, tem então a tripla função de permitir a visualização, a iluminação e a ventilação das estruturas do piso inferior, implantada no quadrado central vazado, sob a escada, oferecendo o circuito do seu perímetro. Foi criado um alçapão de acesso ao piso inferior — apenas para efeitos de operações de manutenção das estruturas ou visitas restritas de peritos — com ligação a uma escada vertical suspensa, do perfil periférico do pavimento do piso da entrada. A intervenção foi complementada com a criação de uma escada de acesso à plataforma da porta da torre em blocos maciços de pedra, dado não existirem elementos preexistentes que assegurassem o vencer deste desnível até à plataforma da entrada. O maciço foi objecto de consolidação, incluindo o preenchimento de lacunas com pedra de natureza semelhante às existentes. Toda a superfície das paredes foi objecto de tratamento de limpeza, desinfestação, aplicação de herbicida e refechamento de juntas. O preenchimento dos vãos de janela dos dois pisos intermédios foi objecto de desmonte das alvenarias aplicadas aquando das obras de consolidação, passando a permitir um franco acesso. A drenagem do interior da torre é complementada com um dreno periférico no perímetro exterior, de forma a evitar a acumulação de água à cota dos achados arqueológicos.


    Luísa Cortesão
    Arquitecta
    Direcção-Geral dos Edifícios
    e Monumentos Nacionais
    Imagens: Revista Monumentos 25 - DGEMN.
    Paço dos Vasconcelos, interior da torre com estruturas metálicas.
     » O paço
    Paço dos Vasconcelos, muros de reforço de fundações.


    Retomou-se a inclinação ainda presente nas empenas interiores, sendo o seu remate sobre caleira periférica, excepção feita na fachada poente, onde as cornijas obrigaram à manutenção do prolongamento da superfície em chapa. A caleira veio permitir absorver os múltiplos empenos das fachadas, rematados por pestana inferior de selagem com a alvenaria. Na ca- pela, uma pequena cúpula sobre a abóbada completa o conjunto. Toda a superfície das fachadas foi limpa, e aplicada uma argamassa pré-doseada, à base de cal, no refechamento das juntas. O traço foi testado e afinado tendo como referência os trabalhos realizados na torre, em função da sua capacidade de aderência ao suporte, resistência mecânica, granulometria e cromatismo. As cantarias trabalhadas foram também objecto de limpeza, aplicados elementos novos — em pedra de igual natureza — nas lacunas, e repostos elementos em falta no seu local de origem. Optou-se pela aplicação de um consolidante mineral no caso das superfícies em acelerado estado de degradação, sendo a sua evolução acompanhada, para eventual intervenção posterior complementar. O desentaipamento de alguns vãos, bem como a correcção das cotas altimétricas de outros que não permitiam passagem, foi também efectuado, permitindo-se o percurso e a visualização das estruturas da vila romana. No caso dos vãos de janela a reabrir, assim como no caso das janelas em que não existia cantaria de guarnecimento, foram aplicadas chapas de aço com 1 centímetro de espessura em toda a largura da parede, a fim de constituir uma superfície lisa para aplicação dos caixilhos. A necessidade de conciliar a observação das estruturas arqueológicas com a passagem entre os diversos espaços levou à colocação de passadiços em estrutura metálica. O seu dimensionamento teve em conta os ângulos de visão e sua conciliação com o percurso de visita. Uma grelhagem metálica, idêntica à aplicada na torre, permite a circulação e a observação das estruturas romanas.


    Luísa Cortesão
    Arquitecta
    Direcção-Geral dos Edifícios
    e Monumentos Nacionais
    Imagens: Revista Monumentos 25 - DGEMN.
  • Paço e Villa de Santiago da Guarda
    Paço dos Vasconcelos, acesso ao piso intermédio.
    Paço dos Vasconcelos, passadiços.
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